Homem civilizadoQuatro horas da manhã.
Do lado de fora,
o mundo continua:
ignora minha existência,
tudo acontece
impulsionado pelo tempo;
mas eu,
eu tenho…consciência
da minha própria existência
e, dentro de casa,
protegido
do que ainda resta de selvagem
no homem civilizado,
fico parado
de olhos fechados
sentindo que nada,
nada lá fora
depende de mim,
o que me permite,
simplesmente,
observá-lo. ¶
Leia também ¶
Essa e outras poesias se encontram no livro GênesisPego meu relógio de bolso,
agarro-o entre meus dedos:
vejo, no vidro de safira,
o reflexo da história.Tac. Tic. Tac. Tic.
Pois antes, havia escuridão
e a matéria que se acumulava,
e se acumulava, e se acumulava,
se acumulava, e se acumulava mais. ¶
Tic. Com tamanha energia-explosão,
houve a luz
e tudo se emerge do breu. ¶
Tac. Gerou, então, sob água (Tic),
a terra (Tac),
e ar (Tic),
condições para animais
nadarem na água,
correrem sobre a terra
e voarem no ar. ¶
Dos animais,
escolheu o homem
para Lhe louvar
e saber de Sua Existência. UrbanosA natureza é linda,
maravilhosa:
o mar azul-verde
onde os peixes
murmuram na noite silenciosa
e as ondas
de vestido de rendas brancas
dan…çam para lá
e para cá;
as montanhas de gorros
brancos ou verdes;
florestas de vários tipos,
de várias árvores
que preenchem espaços vazios;
animais de todas as cores:
sapo roxo, pássaro rosa,
cobra coral, roedor marrom,
peixe laranja, boi preto!
É por isso que,
nas férias,
viajam para conhecê-la. ¶
A natureza é horrível:
mosquitos insuportáveis,
transmissores de doenças;
animais peçonhentos,
trituradores de carne;
ventos e chuvas,
raios,
tempestade;
sol
- lindo sol -
causa câncer,
queima;
rios… Visão pessimistaOs meus maiores ídolos
- seja na música, na poesia,
seja nos quadros ou na projeção
de uma tela de cinema -
falam da morte,
falam de suas…consequências,
de sofrimento e de perdas.
Tentam entender,
adivinhar o que vem a seguir:
lúdicos sonhos e eternidade,
vermes que dão continuação
ao fator universal do transformismo,
a insignificância do ser humano. ¶
Pois, mesmo alimentado
pela comida à la carte
de ídolos que falam
da Dama do Fim,
minha poesia circunda
a vida,
a bel-prazer
do desejo irrefutável
do deus Tempo. ¶
Bem que me dizem,
desde pequeno,
o quanto eu sou pessimista. OlharesDe cima do monte,
sob aquelas nuvens,
o vento bate mais fresco,
os pássaros cantam mais alto,
o mundo gira mais devagar.Sem pressa, plana o condor,
lá em baixo, animais enormes,
que agora parecem formigas,
deslizam pelo tapete verde. ¶
O vento cochicha,
baixinho,
no meu ouvido
coisas que não consigo decifrar,
mas mesmo assim,
lá dentro,
sei que está me dizendo
que de cima ou de baixo,
o mundo é o mesmo! ¶
Leia também ¶
Essa e outras poesias se encontram no livro HumanosHavia perdido a fé
na humanidade:
guerras, corrupção,
o fútil, o raso,
o senso comum.Foi como lidei
quando me deparei
com tal desilusão:
somos humanos
e, como humanos,
podemos estar
humanamente errados,
aleijados pelo sofrimento
e transformados com o destino. ¶
Hoje, eu adicionei
à humanidade
todos aqueles
que apreciam a arte,
que se importam com a experiência
e não com o objetivo final,
que têm consciência
de que todos temos consciência,
aqueles que criam
para que eu possa criar,
aqueles que eu
havia removido. Complementando DescartesExistir não é viver:
existir é estar,
viver é ser.Existir é deixar-se levar
pelos usos e costumes,
viver é experimentar. ¶
Existir é fazer do dia
o mesmo que fizera do ontem,
viver é aproveitar o dia
para fazer
o que não deu tempo ontem. ¶
Existir é planejar o futuro
e executá-lo seguindo roteiro,
viver é improvisar. ¶
Existir, todos existem,
mas viver, apenas alguns humanos,
visto que têm consciência
de que correm contra o tempo. ¶
Por isto, complemento Descartes,
penso,
logo existo;
tenho consciência de que o tempo passa,
logo vivo! No MoleskinePara o cara que fechou seu Moleskine quando sentei ao seu lado no ônibus.Pergunte-me,
vamos,
pergunte-me.
Pode ser qualquer coisa,
da vida,
dos vícios,
das manias,
dos gostos,
pode perguntar,
sem censuras. ¶
Eu falo,
sem puderes,
não precisa nem mesmo
me pagar uma cerveja,
não há necessidade,
não precisa me dar vinho,
me embriagar,
não,
eu falo. ¶
Caso entre no meu quarto
e me pegue nu,
apenas feche a porta,
pois minha nudez
não é vergonha:
meu corpo é meu corpo,
pele que me veste.